A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

2.5.08

Hoje senti-me alentejano


  É verdade, eu, um nortenho, hoje senti-me alentejano.

  Almoço, regado com um vinho tintinho de Cuba de 2006, fresquinho (coloco sempre no frigorífico meia hora antes de beber) e aí está o “je” a pensar que está debaixo de um chaparro, mordiscando uma palha, de botas de atanado grosseiro, calças e colete de cotim. Chambre de riscado e lenço ao pescoço. Resguardando as calças uns safões de lona e na cabeça chapéu de abas largas e copa redonda. Um autêntico alentejano dormindo a sesta.


  Mesmo que o passarinho cantasse nada era comigo. Ali na planície alentejana, onde o sol castiga mais, sentia-me como um nababo, sem nada na coutada mas com o mundo na mão.

  Estar em paz comigo mesmo é estar em paz com o mundo. Podem cair raios e coriscos mas a sensação de que estou ouvindo «Vou-me embora vou partir» dá-me vontade de ficar. Entregue a Deus, entregue à Natureza.

  Se a culpa é do Cuba de 2006 não sei, sei é que há dias assim...

  ...E eu, um nortenho, hoje, senti-me alentejano, amanhã é outro dia!


P.S. - O povo alentejano, como todos os outros povos que fazem parte deste jardim à beira-mar plantado, é um povo trabalhador. Tem a fama mas não teve o proveito pois foi um povo extremamente explorado. E o Alentejo, ontem o celeiro de Portugal, está em completo abandono porque quem governa este País pensa que sai mais barato comprar lá fora o que tínhamos cá dentro.


2 comentários:

VALROCHA disse...

Amigo:
Não consigo sair do MARIUS... Aquelas páginas de música são um encanto, que já divulguei tanto!
Não sabia que também tinha este Blogue, que descobri por acaso (como no caso do MARIUS). É um crime não ter maior divulgação!!!
Você é fantástico, meu AMIGO!
Gosto de tudo o que publica.

Valdemar Rocha
nobre-luso@hotmail.com
(58 anos)
Valongo

Sérgio O. Sá disse...

Para o Márius, pois como ele me sinto alentejano, embora seja duriense, e para todos os alentejanos, este poema produzido em 2002, em Monsaraz.
DEPOIS DO CREPÚSCULO
Fim de terde.
O Sol acaba de se esconder
para lá do horizonte,
deixando atrás de si
um rasto luminoso
que avermelha o céu.
A estrela do pastor já quer luzir
anunciando a hora da recolha.
E mais perto ou mais distante
a paisagem é riscada
pela sonoridade doce
de mil chocalhos que se apressam
porque o crepúsculo se definha
a cada instante.
Repete-se o ritual
que faz esquecer o tempo
que perde a conta dos dias,
mas lembra a hora em que o sino,
no campanário da igreja
das aldeias que a têm,
tocava as ave-marias.
Entretanto a noite cai
para envolver de espessa sombra
todo este meu redor
e transformar a natureza
em vultos indefinidos e mudos
que se escapam quando rasgo as pupilas para os ver.
Só o mormúrio do silêncio me faz companhia.
E enquanto o luar não chega,
nem o mocho pia.
E meu pensamento?
Quem o guia,
se nem há vento?
E para onde o levar
se ele quer aqui ficar?

In. ONDE APANHEI ESTES VERSOS
- Poemas no Alentejo -