A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

10.11.05

O Lírico Cantor!...






  Um dia destes, à noite, fui para a varanda e deu-me uma vontade enorme de cantar uma ária. Como não sabia nenhuma resolvi cantar o «Ser benfiquista.». Afinei a voz e como um Carusso, para os mais antigos, ou como Carreras, para os actuais, soltei-a e, como um verdadeiro barítono, comecei a gritar:

Ser Benfiquista
é ter na alma a chama imensa…


  Ao ouvir a minha voz a cantar com tamanha emoção o hino do meu clube, até os pelos do peito se me eriçaram. Os copos de cristal, a cada trinado, tilintavam, mas de certo é cristal falso porque se fosse verdadeiro partiriam tal a força e a pujança do meu “vibrato”. Um gato miava um cão uivava, de certo confundidos, pois devem ter ficado na dúvida se aquilo que ouviam eram miados ou latidos. Mas eu não liguei e continuei a cantar em plenos pulmões.

  O meu vizinho veio à janela ver o que se passava, se, por acaso, tinha sido alguém atropelado mas, quando me viu de tronco nu, com os pelos eriçados, deu-me um sorriso amarelo mas o que se podia esperar de um verde… não compreendem o valor artístico da voz de um benfiquista.

  Ao longe um frango espirrou, espirra praí ó galináceo!!!!... Agora é que o Ricardo está bem, não pode levar frangos para o campo. Mas não é necessário, o fiscal mal o vê esfrega o olho por causa da gripe e assim o Ricardo senta-se dentro da capoeira e não há bola que entre mesmo com ela lá dentro.

  Por baixo da minha varanda a vizinhança juntou-se, só ouvia uns zunzuns, deveriam ser elogios mas eu, com a modéstia que me tarimba, não lhes passei "cartão". São assim os grandes artistas.

  Uma carrinha de hortaliça parou nas imediações. Logo o pessoal se deslocou a ela em grande correria, e eu, inchado que nem um peru, cantava a minha última estrofe:

… que nos campos a vibrar
são papoilas saltitanteeeeeeeees.


  Antes que as palmas e os pedidos de bis se fizessem ouvir, fechei a porta e retirei-me para os meus aposentos. Os meus olhos lacrimejavam tal o orgulho que sentia de mim. Dormi em paz e, no dia seguinte, vi o quanto a vizinhança tinha gostado. A minha varanda estava pintada de vermelho dos tomates, a fruta e as alfaces espalhavam-se,... durante uma semana não necessito de ir às compras.

  Agora vou começar a treinar mas desta vez uma ária a sério, talvez a «March Of the Toreadores», assim, quando me mandarem alguma coisa, eu, como um verdadeiro toureiro, só direi… «OLÉ»!


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