A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

23.7.05

Uma Luz de Esperança!...



  Arrumo o carro nas imediações. Procuro um determinado local, onde possa entregar o que levo na bagageira. A entrada, onde o ano passado estive, está fechada. Ninguém parece saber como chegar à instituição. Quando pensava que tinha que dar meia-volta e ir-me embora lá apareceu alguém que me apontou uma nova entrada. Era um pouco ao lado do sítio onde tinha estado anteriormente.

  Por terrenos cheios de sulcos e pequenos declives lá consigo chegar ao local pretendido.

  Grupos de jovens estão ali dentro de uma cerca. Rostos fechados, lábios sem risos. Vão dando uns pontapés na bola sem grande alarido como se tudo se resumisse a nada. Olham com indiferença já habituados a estas demandas. Maldita sorte tiveram à nascença, foram atirados para a rua como nem aos animais se faz. São crianças abandonadas.

  Que uma verdadeira família os recolha no seu seio e, como vela que irradia a luz da felicidade, lhes oriente a vida rumo a bom porto.


21.7.05

Cinderela




  Eis a verdadeira história de Cinderela. Não é uma história linda, é sim um horror. O que os homens fazem às mulheres para o servirem a ele, seu amo e senhor. Não me venham cá com tradições...

  Ao longo da História, várias foram as culturas que optaram por exagerar diversas partes do corpo. Na China, era costume forçar a natureza, exagerando a pequenez do pé feminino. Os pés das mulheres eram enfaixados, um processo extremamente doloroso que começava na infância. As mães exigiam que as filhas, a partir dos sete anos, envolvessem os pés minúsculos numa ligadura especial, com 5 centímetros de largura e 3 metros de comprimento, que obrigava os dedos mais pequenos a encaracolarem-se para trás e para baixo, deixando livre apenas o dedo grande. À medida que a ligadura ia sendo apertada, a sola do pé aproximava-se cada vez mais do calcanhar. Depois de vários anos deste tratamento, o pé ficava deformado para sempre, comprimido e atrofiado, quase como um pequeno casco, Os pés cabiam então nos pequenos sapatos requintadamente bordados, apenas com alguns centímetros de comprimento, que eram confeccionados para as senhoras da alta sociedade.

  O pé pequeno semelhante a um casco, chamado Lótus Dourado, era considerado o máximo da beleza erótica pelos homens chineses. Enquanto faziam amor, eles acariciavam o Lótus Dourado, chupavam-no, mordiscavam-no e chegavam a enfiá-lo totalmente na boca, O pé tornava-se o núcleo do desejo erótico. Como as mulheres têm os pés mais pequenos que os homens, o exagero dessa diferença traduzia-se num excesso de feminilidade para a mulher. Só as camponesas é que tinham os pés achatados, ou “pés de pato”, como lhes chamavam com sarcasmo. (E não é de admirar que a história da Cinderela — cujas irmãs, muito feias, não conseguiram enfiar os pés enormes no minúsculo sapatinho — seja de origem chinesa.)

  O hábito chinês dos pés enfaixados durou quase um milénio, desde o século X até ao início do século XX, quando foi finalmente suprimido, devido à sua crueldade. O facto de ter subsistido durante tanto tempo deve-se à sua dupla importância: o pé não só era uma zona erótica, como era um símbolo de um estatuto social elevado. As mulheres que tinham os pés enfaixados não podiam executar trabalhos manuais. Ter um par de Lótus Dourados equivalia a uma vida inteira de reclusão palaciana, de inactividade forçada e de fidelidade.


Desmond Morris in «Os Sexos Humanos»

Eis a “Cinderela”, velha mas para sempre... “Cinderela”.




15.7.05

Voltar prá Ilha


 Tudo na vida tem um principio e um fim, um antes, um durante e um depois. Por mais voltas que se dê, por mais quilómetros que se ande, por mais vales, montanhas, rios, mares que se navegue, caminhos que se palmilhe é, certo e sabido, que o que nos espera é uma placa que diz… FIM.

Depois, resta-nos a lembrança, essa que nunca morre a não ser connosco, que, durante um período lato da nossa existência, nos mostrará de novo a ponte romana, o rio Gilão, os Mundos Perdidos, as marinas, as praias, as Rias, os toques, os sons, o bulício das noites quentes, as cervejas que se bebem, o peixinho grelhado, os malabaristas, as marginais, o convívio e o olhar.

Sim o olhar, esse olhar que tudo retém, que tudo memoriza, que nos dá o amor e o ódio, que nos dá essa sensação imensa da lonjura do oceano e das estrelas e, depois de tudo passado, de tudo acabado, só resta visualizar tudo isso nas gavetas da nossa memória e a convicção de que para o ano há mais, mas como eu gostaria neste momento, de novo,... Voltar prá ilha!


2005-07-15

17.6.05

Vou ali... e já venho!






A net é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

Arrivederci!

2005-06-17

15.6.05

Quem sou?!... Quem és?!...


 Neste momento um sorriso passa pelo meu rosto. Quantas das vezes imaginei quem e como será a pessoa que, atrás de um nick, aqui escreve uma prosa, um verso, um desabafo ou um simples bom dia. Quantas das vezes olho para quem está numa paragem, numa fila de trânsito ou num sítio qualquer de um lugar ao acaso, e me pergunto: - «Será que algum destes rostos, um dia, se cruzou com o de marius70 na escrita?»

 Um dia escrevi na areia da praia, marius70, à espera que alguém visse, de um sorriso, uma procura, um tentando descortinar quem aquilo tinha escrito, mas nenhum rosto se voltou, nenhum sorriso vislumbrei e o mar, de mansinho, apagou, nada restando a não ser eu que, com uma pena na mão, procurava na multidão outros rostos iguais.

 À noite, junto à fogueira do meu imaginário, eles vêm ter comigo. Vejo-os sem rosto, escuto as suas vozes, escuto os seus corações, damos as mãos e, lentamente, ao som dos acordes que um dia marius aprendeu, rodopiámos numa sensação ébria de que afinal, já nos conhecíamos há muito tempo.

2.6.05

A criança em mim...

 O velho hospital está em “pantanas”. Electricistas procuram esconder os fios que irão servir de suporte aos vários holofotes que iluminarão o cenário.

 A empregadita limpa mais uma vez o chão para que esteja a brilhar na altura das filmagens.

 Ouvem-se as vozes dos responsáveis para que tudo fique em conformidade com as indicações do realizador. As câmaras são colocados em pontos estratégicos.

 Verificam-se os carris por onde as máquinas deslizarão para as tomadas da cena. Uma madre saltitante, faz um virote no saiote chamando a atenção de todos pela sua desenvoltura.

 A um canto, vê-se uma mesa com vários acepipes preparados pela zezinha, cozinheira de serviço , onde se encontrava já sentado um dos actores principais.

 Num palco montado para o efeito, uma espanhola dá uns requebros de salero.



 Um aracnídeo vai descendo pela sua teia - por enquanto escapou ao olhar arguto da empregadita

 Vários figurantes deambulam ao acaso, até que se ouve a voz do realizador:


                                          - Todos aos seus lugares.

 A câmara aproxima-se da figura esguia, na cabeça, um chapéu de coco.

    

  - Olá, alguém viu o meu amigo Bucha? Se por acaso o virem, digam que estou à espera dele há já algum tempo!!! - diz o Estica exasperado.

  O chefe de cozinha, jchati agradece a ajuda da nova cozinheira, palanys que chega na altura exacta para ajudar a preparar o enorme peixe que o Bucha tinha trazido pela manhã.

  Siduxa, secretária do realizador, vem apressada, tentando naquele emaranhado de fios e máquinas encontrar o seu chefe.

  O popiun ao vê-la, vem em alvoroço dizer-lhe: - Em cena quem é de cena, fora de cena quem não é da cena. e acontece o inevitável, siduxa tropeça num dos fios e só se vêm bobines pelo ar, instala-se a confusão e o Estica sem saber como, encontra-se no chão estatelado.

 - Mas o que é isto? Algum tremor de terra?



 A criança entra no cinema. Senta-se num qualquer lugar num banco de madeira corrido. Por todo o lado ouve-se a algazarra de outras crianças que, como ele, esperam ansiosamente o início do filme, parecem bandos de pardais à solta. 15 tostões foi quanto lhe custou o bilhete e como foi tão difícil arranjá-los. Pede aqui, pede ali e ali está ele. Ouve-se o som característico do início da sessão. Lentamente vão-se apagando as luzes, abrem-se as cortinas e, no écran, aparecem as primeiras imagens do filme…


O Bucha e o Estica