A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

18.5.17

A "mãe" natureza

A natureza não é aquilo que aparentemente vemos. Quando sentamos no nosso rochedo olhando o bonito céu, refletindo no quanto somos ínfimos na imensidão do cosmos, por baixo de nós, ao nosso lado ou mesmo em frente, há uma luta titânica pela sobrevivência, pela continuidade da espécie. Na natureza tudo vale, não há que escamotear, a natureza é impiedosa.

Durante estes anos que tenho de fotografia, já tenho visto situações que me fazem recordar que nós não somos mais que produtos dessa mesma natureza. Matamos para sobreviver e, para expandir o espaço dos nossos domínios, arrasamos tudo o que nos aparece à frente. As mulheres são, para as forças conquistadores, o troféu dessa conquista. São violadas e se não feitas escravas, serão mortas sem dó nem piedade. Desmond Morris no seu livro "Macaco Nu" demonstra isso; o comportamento humano não difere muito do comportamento das outras espécies. Estamos sempre em lutas permanentes, seja por territórios, seja para alcançar a fêmea pretendida. E elas olham e sabem qual o macho que lhes mais interessa. Insinuam-se até artificialmente, aumentando os seios e as nádegas pois sabem que é por aí que os machos olham primeiro. O resto do corpo poderá não condizer com a anatomia corporal referida, mas o macho já ficou embasbacado com o que viu e o caçador é caçado.

Se um indivíduo aparece a uma possível conquista com um Ferrari e um outro pretendente com um mini, é lógico que o caçador a ser caçado, mesmo que corporalmente não seja melhor que o do mini, seja o do Ferrari. E isso porque lhe dá a garantia de uma vida de sucesso e um bem estar para os filhos que venham a ter. Poderá ter é uma surpresa desagradável, que o Ferrari seja alugado e apareça depois um carro bem pior que o mini, mas aí o mal já está feito. Claro que, como em tudo na vida, há exceções.

Na natureza tenho contemplado tudo isso. A aranha que se esconde para matar quem pousa na flor. A mosca assassina que golpeia sem dó nem piedade o gafanhoto, a borboleta que numa luta com outros da sua espécie, tenta dominar o território para se apoderar das fêmeas que por ali passam. Acontece tudo isso com todas as espécies. Na flora o mesmo se passa embora aí tudo seja mais silencioso.

Sabemos que os leões e ursos matam as crias de outro leão ou urso para que as fêmeas entrem de novo em cio. Que um pássaro que faça mal o seu ninho não tem hipótese, a fêmea vê e se não gostar procura novo parceiro. Sabe-se que as moscas machos quando rejeitados, procuram alimentos mais alcoólicos para se esquecerem da "tampa" que levaram. "Bebem para esquecer", já ouviram isso não ouviram? Pois... muitas vezes está por trás uma rejeição continuada do ato sexual.

Os pássaros machos são os mais coloridos. E são-no para agradar à fêmea que, ao contrário das do género humano, são sem graça. Dançam, chilreiam e dão presentes que podem ou não, chamar a atenção da fêmea pretendida. Há que as cativar com a plumagem, com o ninho, com o canto, com a dança.

Um dia estava a fotografar e vejo uns insectos a passar por mim mas muito rápidos. Pareceu-me tudo aquilo muito estranho. Parecia haver ali alguma coisa que não era normal. Seriam três pegados uns aos outros?! O mundo destes insetos é um mundo muito pequeno. Tudo é em miniatura. É preciso ter boa vista para poder ver, o que a natureza nos oferece neste mundo liliputiano.

Segui com o olhar e vi que poisavam no meio de uns arbustos. Aproximei-me com cuidado. Eram moscas do género Empis. O que vi depois deixou-me estarrecido. Um deles estava a servir de refeição à fêmea para que o macho, que tinha feita a matança macabra de um individuo da sua espécie, a copulasse enquanto esta devorava a "oferta". Assim, o assassino, conquistou a possibilidade de continuar o seu ADN pela geração vindoura.

Reparar na força do macho que, com as duas patas presas na planta, suporta o peso dos três. Por sexo tudo se suporta.

17.4.17

Uma foto minha em tela

"A arte de pintar é apenas a arte de exprimir o invisível através do visível."

Eugène Fromentin

A pintora Josefa Moura, tomou a liberdade de pegar na palete de cores e transportar para a tela os tons que a sua alma de artista lhe foi transmitindo. Uma pintura não é tornar o que se vê tão real como o original, para isso bastava a foto e nada mais seria necessário. Pintar é dar o seu cunho pessoal sem fugir do objetivo. E esta pintura conseguiu-o.

Já está no local onde deve estar e onde tinha que estar, em minha casa.

Obrigado Josefa Moura, continuação de boas pinturas tanto a óleo como em aguarela, e bons êxitos.

Quem quiser contactar a Josefa para trabalhos futuros é só seguir este caminho.

https://www.facebook.com/josefa.moura.50?fref=ts

23.3.17

Coimbra dos Amores

Coimbra, no antigamente, era ponto de paragem. Gostava de ver o «basófias», mirava do seu jardim o Mosteiro de Santa Clara.


Deambulava por ali, percorrendo aquelas ruas com história, subia a escadaria até à Universidade, ia até ao Penedo da Saudade ler a poesia, mirar a cidade.

"Escuta Penedo,
Ouve baixinho,
Não tenhas medo
Não estás sozinho
E quando do além
Te mirarmos
Não chores por nós,
Que não estás abandonado!
Acena-nos, diz-nos adeus
Que havemos de a ti voltar" (1)


Demandava até aos Olivais, visitava a sua Igreja. Entrava em casario com cheiro a bafio. Amontoado de móveis de diversas épocas davam um aspeto tétrico de um passado misturado com o presente ou talvez com coisa nenhuma. Ah e a Briosa, esteio de jogadores/estudantes.


"Pergunta o jornalista: - E se a Académica ia jogar fora, também ias? – É claro. – E se havia porrada no campo? – Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. E, quando o entrevistador lhe pergunta: – Mas o que te marcou em Coimbra? - responde o mesmo que eu e muitos outros teríamos respondido: – Essa atmosfera romântica e irreverente ao mesmo tempo." (2)

Era a cidade dos estudantes e eu sentia que naquelas noites de canto às tricanas, estaria ali cantando «Aquela moça da Aldeia» para uma janela entreaberta ou, talvez, o «Solitário» para a lua.

“Perguntas-me o que é morrer,
Meu amor, minha alegria,
Morrer é passar um dia
Todo inteiro sem te ver!” (3)


Aquela cidade mística que, aos poucos, foi deixando de ser.

“Do Choupal até à lapa
Foi Coimbra os meus amores
A sombra da minha capa
Deu no chão, abriu em flores” (4)

Agora é uma cidade cosmopolita. Gente apressada e, eu, sou mais um rosto, entre tantos outros rostos sem rosto.

(1) – F.A.C. Veloso
(2) – in José Afonso “Livra-te do Medo” de José A. Salvador
(3) – “Solitário” de Horácio Menano
(4) – “Saudades de Coimbra” de Afonso de Sousa

fotos tiradas em 2008


10.12.16

Mar Eterno

Esta morna que faz parte do meu tempo e das minhas memórias de menino e moço e a quem pego o título e faço um pseudo-poema em nov1975 a essa morna dedicada.

Ó Mar Eterno, mar eterno
Que desde o início dos tempos perduras
Canta-te em "Odisseia" Homero
Heróis de fantásticas aventuras

E nas noites de tempo lançado
Quero-te ouvir Ó Mar Eterno,
Numa voz de hoje cantado.
Na melancolia deste Inverno

No holocausto deste Inferno,
Lava as chagas deste ser desmembrado,
Que na terra foi lançado
Pelo ventre materno.

Encerras dentro de ti
A solução deste planeta incerto,
De um passado que não vi,
De um futuro, estranhamente perto

Se a guerra acabada,
Um Homem não existir então,
Gera outro com a Terra amada,
E inicia uma nova geração.

Uma nova geração, oh mar
Que só saiba o que é o amor!...
Pois esta fez o seu lar,
Sobre o ódio, egoísmo e dor.

... e nesse novo mundo amigo
traz-me de novo contigo.

Nov. 1975

Mário Lima

Uma morna nunca esquecida mas também nunca mais ouvida. Hoje voltei a ouvir e na voz que me ficou sempre na memória, Mário de Melo.


Eleutério Sanches

22.11.16

O fim do arco-íris

A noite fora chuvosa. Sabia que o trânsito seria infernal quando saísse. E assim foi. Longas filas, acidentes vários. Dentro do carro a passo de caracol ia avançando e o sono apertando. Os olhos teimavam em fechar. Estava difícil aguentar o pára-arranca sem adormecer.

- Amanhã n'O Fio da Meada, será a vez da historiadora Irene Pimentel - assim falava António Macedo na Antena 1.

Condutores com a esperteza saloia que define muitos portugueses, iam na faixa contrária e tentavam meter-se um pouco mais à frente para recuperar dois lugares na já longa fila de quilómetros.

Olho para o céu. Dois deslumbrantes arco-íris tingiam o cinzento do corcel de nuvens que cavalgavam no espaço, ora abrindo clareiras por onde o sol espreitava, ora grossas bátegas caíam em força sobre os carros dos cada vez mais nervosos motoristas.

Dois arco-íris? Lindo. Um deles longe, outro bem perto. A estrada divide-se. Sigo para a direita, mas de tão lento que dava para ver tudo em pormenor. Uma menina ao volante no telemóvel escrevia. Outros fumavam desesperados. Ia deambulando o meu olhar até que o parei num determinado local, onde o verde na berma predominava. As cores do arco-íris terminavam (ou começavam) ali. As sete cores translúcidas mergulhavam naquele verde. Fiquei abismado, nunca tal tinha visto. Olhei maravilhado como se dali saísse o pote de ouro e um duende tomando conta dele contra a ganância do Homem.

Foram segundos, foi um instante pois logo de seguida cai em força nova remessa de água e as cores desvaneceram.

All in all it's just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wal

Cantavam os Pink Floyd no cd que tinha colocado. E o "muro" à minha frente não andava.

Uns palitos nos olhos dariam jeito naquela altura. Sobe, desce, túnel, volta a descer. Mais há frente, bombeiros com a agulheta, lavam a estrada de três faixas confinadas numa só. Alguém por ali "voara" de encontro a um destino incerto.

Duas horas e meia depois chego . "Home sweet home" - diz-me o tapete à entrada.

Olho pela vidraça do quarto. Um outro arco-íris brilha intensamente. Mas não é o meu. Esse desfez-se nas brumas do tempo.

Fecho a persiana. Acomodo o corpo entre os lençóis e durmo o sono dos justos com um sorriso nos lábios. O meu arco-íris brilhava nele.