A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

3.4.19

O Ardina

Pela manhã ou no final da tarde, o ardina na sua correria, dobrava o jornal e mandava para as janelas mais altas dos seus fieis cliente, ou de um ou outro que o solicitasse e não falhava a pontaria.

Os ardinas surgiram em Portugal em 1864, aquando do nascimento do “Diário de Notícias”, pela mão do jornalista e escritor Eduardo Coelho.

Em pleno jardim de São Pedro de Alcântara, está um monumento dedicado a Eduardo Coelho, por baixo dele, um ardina apregoa o famoso jornal.

Quem é esse ardina? Quem foi que serviu de modelo para perpetuar essa figura típica da Lisboa antiga?

Tive o prazer de saber quem foi esse pequeno vendedor de jornais, seu nome: João Maria da Costa Mortágua.

Considerado o melhor ardina do Diário de Notícias, calcorreava Lisboa de lés a lés. Tinha 10 anos quando começou a vender jornais. Nascido em 1889, vencido pela vida e falta de saúde, morre a 13 de abril de 1943, com 54 anos, no Hospital S. José.

"A chuva persistente e o vento frio que tanto o acompanharam na labuta humilde de vendedor de jornais, não o abandonaram hoje durante o desfile silencioso pelas ruas tristes e escorregadias da cidade que anos e anos, de manhã à noite, ele animou com o seu pregão vibrante"

Assim 'rezava' uma crónica no jornal "Diário Popular" (onde Mortágua também trabalhou). O "Século" e naturalmente o "Diário de Notícias", fizeram questão de dar a conhecer aos seus leitores a morte deste ardina.

Deixou descendentes que, tal como ele, eram vendedores de jornais.

Hoje o ardina tem quiosque, já não se ouve o seu pregão:

"Olha o Século, olha o Diário de Noticias .
Olha a Capital, Republica ó Popular.
Diário de Lisboa, olha o Popular, trás o desastre."

Quando passarem pelo jardim de S. Pedro de Alcântara, olhem para aquela figura ladina que, com o seu barrete na cabeça, faz parte da história de todos nós.

fontes: "Diário de Notícias", "O Século", "Diário Popular", "Diário da Manhã", Monica Lisboa (bisneta do ardina), e daqui:

https://aviagemdosargonautas.net/2014/02/18/olha-o-popular-olha-a-capital-olha-o-jornal-de-noticias-por-clara-castilho/

http://cvalente.blogspot.com/2007/08/preges-de-lisboa-antiga.html

fado dedicado ao ardina, com fotos minhas de João Mortágua e recortes dos jornais da época:


29.3.19

Retalhos da minha memória...

Deambulo pela cidade de Lisboa. Os meus passos, já que estavam perto, dirigem-se para o Jardim do Príncipe Real no Bairro Alto. Ali estava um local que muito me dizia. Foi na Rua Ruben A. Leitão que, depois de casado, fui morar em 1976.

Como estaria esse edifício, quase 43 anos depois? Desço a Rua do Jasmim, onde 'morou' a CGTP. Eis a rua Ruben A. Leitão. O prédio ainda lá está, 9 o nº da porta. Noto que há obras no interior, mas a fachada do prédio é a mesma. Ao lado, já não. Estão descaraterizadas relativamente ao tempo em que lá morei.

A porta está aberta, vejo os lances de escada que me levava ao piso superior e se eu e a minha mulher inicialmente subíamos os dois, mais tarde uma alcofa subia connosco, o da nossa primeira filha que ainda ali viveu uns tempos.

Foi nessa rua que, em 1979, surge o jornal "O Correio da Manhã". Ali os vi a preparar os jornais nas rotativas, sem grandes condições para os seus escribas, mas foi um marco na existência desse jornal.

Lisboa ao entardecer.

Lisboa

Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade, in Até Amanhã, 1956

foto tirada do Jardim de S. Pedro de Alcântara.

28.3.19

Vamos ao Teatro...

Peça 'Zoom' no Teatro da Trindade.

Sinopse:

"Zoom é uma peça sobre a relação de Sarah (Sandra Faleiro), uma fotojornalista recém-chegada da Guerra do Iraque, depois de ter sido ferida pela explosão de uma bomba, e do seu namorado James (João Reis), um repórter de guerra. James tenta que mudem o rumo das suas vidas, para que possam finalmente sonhar com uma “vida normal”, mas as cicatrizes emocionais com que ambos se debatem revelam um casal numa encruzilhada.

Em casa, recebem a visita do amigo Richard (Virgílio Castelo), editor de fotografia, que lhes apresenta a sua nova namorada, Mandy (Sara Matos), consideravelmente mais nova que ele, e que com a sua aparente ingenuidade e franqueza desconcertante, coloca questões sobre a ética e a moral que produzem em Sarah um efeito avassalador.... "

Com estes bons profissionais, a peça teve momentos que tirou dos espetadores boas gargalhadas e, sendo o tema baseado em momentos de guerra, em que há duas situações que se opõem mas que no fundo se complementam, as vítimas e quem fotografa esses horrores da guerra (os repórteres da guerra são muitas vezes vítimas desse levar a fotografia ou a escrita da violência a todos nós. Muitos prémios Puliterz tem quase sempre a guerra como tema principal para atribuição desse prémio), para quem gostar do tema é de ver.

Infelizmente a sala tem dois inconvenientes: qualquer pessoa um pouco mais alta que o Nelson Ned, tira a visibilidade da boca de cena a quem atrás está (e ontem a plateia estava muito bem composta), e o som. Quando há um falar mais baixo (principalmente nas atrizes) pouco se percebe e todos sabemos que quanto mais para 'sénior' se vai, mais duro é o ouvido.

A sala é um espetáculo, e estas são as únicas fotos que me foram permitidas tirar.

Se quiseres saber mais, vai ao Teatro.

22.3.19

Não ficará pedra sobre pedra…

E assim desapareceu o imóvel em ruínas ao cimo da Calçada de Carriche.

Que me lembre sempre o conheci degradado e a inclemência do tempo e do Homem, deram-lhe a ‘machadada’ final.

Fica esta minha fotografia a relembrar que, outrora, ali havia uma habitação onde, porventura, se ouviram risos de crianças, e o bulício próprio de um lar.

19.3.19

Hoje é dia do Pai

O meu já 'partiu' há muito tempo. Foi o pai possível numa 'ninhada' de seis filhos. Muitas vezes só lhes damos importância quando não os temos junto a nós. O pai é sempre o 'mau' da fita da vida.

Para nos criar, tivemos que 'nos' criar muito cedo ao trabalharmos ainda crianças. Não tivemos tempo em o sermos, mas aproveitamos bem o pouco tempo que o fomos.

Hoje pai e avô, fica-se sempre com a sensação que o que se faz, nunca é verdadeiramente reconhecido. Talvez o sejamos ou talvez só na hora da partida é que esse reconhecimento seja mais sentido, como acontece com a quase totalidade de todos nós... e dizemos, afinal o nosso pai era um bom pai, mesmo que nunca o tivesse sido.

O meu pai na Rua do Lobito, Luanda, num momento de lazer, na varanda da nossa casa.

Parabéns Pai pelo teu dia!