A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

18.12.06

Há Mais Uma Estrela no Céu



Poema de Natal

                                  Para isso fomos feitos:
                                  Para lembrar e ser lembrados
                                  Para chorar e fazer chorar
                                  Para enterrar os nossos mortos —
                                  Por isso temos braços longos para os adeuses
                                  Mãos para colher o que foi dado
                                  Dedos para cavar a terra.
                                  Assim será nossa vida:
                                  Uma tarde sempre a esquecer
                                  Uma estrela a se apagar na treva
                                  Um caminho entre dois túmulos —
                                  Por isso precisamos velar
                                  Falar baixo, pisar leve, ver
                                  A noite dormir em silêncio.
                                  Não há muito o que dizer:
                                  Uma canção sobre um berço
                                  Um verso, talvez de amor
                                  Uma prece por quem se vai —
                                  Mas que essa hora não esqueça
                                  E por ela os nossos corações
                                  Se deixem, graves e simples.
                                  Pois para isso fomos feitos:
                                  Para a esperança no milagre
                                  Para a participação da poesia
                                  Para ver a face da morte —
                                  De repente nunca mais esperaremos...
                                  Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
                                  Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes


Boas Festas e Feliz Ano Novo


15.8.06

Tocam os Sinos...



  Os sinos anunciam a saída da Procissão. Com os braços abertos, Nossa Senhora de Assunção, em frente ao porto de pesca, ao som das sereias e dos foguetes lançados das traineiras engalanadas, abençoa aqueles que no mar têm o seu ganha-pão, ou o seu leito de morte.


  Muitos anos atrás saía também a Procissão. No ar, um vagido se ouviu, mais alguém tinha nascido. Pelas cangostas andou. No antigo mercado saltou para juntar mais uma peça ao presépio; uma ovelhinha, o Menino Jesus, a Nª Senhora, o pastor... enquanto seu avô colocava mais um par de solas e, a sua companheira de uma vida, deambulava de aldeia em aldeia vendendo o que o mar dava.


  Com a sacola ao ombro e a sua lousa traçava, com pau de giz, as primeiras letras: B, A =BA.. Pela janela via o céu azul, o campo sem fim. A chuva, miudinha, caía durante semanas.

  De calção lá ia para a praia onde, feito miúdo Adão, se atirava enquanto na «Boca-do-Lobo» o mar fazia um barulho dos "diabos" e, todo o cuidado era pouco não fosse alguém ser engolido por aquela "garganta" escancarada.


  As traineiras ondulavam ao sabor das ondas e os barcos, na areia, aguardavam a chegada dos pescadores para mais uma ida ao mar. As mulheres olhavam para os seus "h'ómes" rezando com fé para que a faina corresse bem.
  "Ala-Arriba", gritavam as pescadeiras que, em conjunto com os homens, puxavam o barco com o pescado...


... que era logo ali dividido e comercializado na lota de pesca.


  Correrias, brincadeiras, ora com umas fisgadas bem “amandadas”, ora brincando de cowboys e de índios, uns jogos de bola junto à Fortaleza e, o polícia, mesmo ali a multar pois não se podia jogar descalço, no tempo em que uma sardinha alimentava quase uma família.


 O silvo de um barco atroou os ares, na amurada, as crianças viam o barco a desencostar do cais de embarque e a partir para o alto mar. No cais, lenços diziam adeus a quem partia...


 ... E, assim, se passaram horas, dias, anos!...

  Tocam os sinos, os foguetes estalejam... Vai sair a Procissão!

 Para a Poveira, minha mãe, um beijo do tamanho do mundo e desculpa ter-te feito "perder" a Festa da Assunção nesse ano!


A Poveirinha - Rancho Folclórico Poveiro


 Ala-Arriba! é uma expressão poveira que significa "força (para cima)".


15-08-2006

4.7.06

Do Alto da Falésia!...


 Podia pegar no tema que escrevi no ano passado e transcrevê-lo para aqui. Os momentos passados, vividos, sentidos têm todos os anos pontos comuns. Mas enquanto no ano passado voltaria para a Ilha,este ano voltaria para o algar ali na praia da Marinha (Carvoeiro) e, do alto da falésia, voltaria a desfrutar a imensidão do mar azul, as gaivotas que tão de perto passavam, o barquinho fundeado.

 Sentado, voltaria a sentir a brisa suave, o amor-próprio, o céu sereno, as vagas ondulantes, o murmúrio do canto das sereias. A meu lado um abismo, o algar de Leixões da Gaivota.

 Recordei os amigos da net que conheci pessoalmente, (Mário Lima-Amile o Luís Monteiro-Bufagato),o Marão que subi, as terras que visitei, as ruí­nas romanas que pisei, as pontes que atravessei, as grutas de Ibn Ammar que não encontrei. A estrada sinuosa do Pico da Fóia, a paisagem que lá do alto desfrutei.

 Os animais em vias de extinção que vi, como se de um safari se tratasse, as maravilhas em esculturas de areia, as ruí­nas dos conventos, dos castelos, do desprezo do homem para com a natureza, para com a cultura, para com a história.

 Sozinho, ali onde as minhas mãos "quase" tocavam o céu, senti-me pequenino mas também grande pois, nesse momento, comunguei com a Natureza e, no seu regaço me deitei, sonhando que num amanhã voltarei de novo... ao alto da falésia!


2006-07-04

10.4.06

Quinze anos de corridas...




  Parece que foi ontem mas já se passaram quinze anos que calcei os ténis e comecei a calcorrear as estradas. Ainda me lembro como comecei. Tendo em épocas idas treinado atletismo no S. L. B. de Luanda (só podia ser no Glorioso), pensei muitos anos depois, que tinha chegado a altura de enfiar de novo os ténis e ala que se faz tarde. Ingenuidade minha, tive uma “canelite” que me fez estar parado alguns meses. Mas a vontade era muita e rectificando os erros cometidos; como utilizar sapatos adequados e treinos progressivos eis, que num Domingo agreste fiz a minha primeira prova nos Bons – Dias ali para os lados de Caneças – Odivelas. Não foi mau mas com as subidas que tinha fiquei com a impressão que a partir daí as subidas passaram a ser o meu calcanhar de Aquiles. Digo eu, que já fiz tantas provas com subidas tão acentuadas, que escalar os Pirinéus deve ser uma brincadeira de crianças. Claro que é um exagero mas ao fim destes anos de corrida por certo já dava para subir e descer os Pirinéus várias vezes.

  Nestes anos, muitas lesões, muito desânimo, muito vento, granizo, chuva, e uma vontade enorme de dizer, BASTA!... Já chega. Mas, no Domingo seguinte, lá estou de novo à espera do tiro de partida para mais uma corrida, mais uma viagem.

  Uma vez em Cascais, chovia torrencialmente, cai depois granizo forte e feio, o pessoal foge, ora abrigando-se num quiosque ora para baixo das varandas do hotel, mas ao tiro da partida ali estávamos todos, arrepiados mas sem desfalecimentos, a caminho do Guincho com o vento impedindo-nos de correr mas com uma vontade indómita de chegar ao fim. E, quando ao fim de 20km, se avista a meta, o nosso peito abre-se numa alegria enorme pelo facto de que nem os obstáculos da Natureza nos impediu de realizar o sonho, o sonho de que, quando a gente quer, não há nada que nos impeça de o concretizar.

  Outra prova com tempo terrível foi em Espanha, Vigo/Baiona, meia-maratona, 21098m, ou seja 21km e uns trocos. 21km de sofrimento. Depois da meta “cortada” bem tentaram os massagistas colocar os músculos tensos pela prova em músculos tenrinhos mas nada. Acabaram por desistir e eu lá tive que arranjar forma de chegar ao transporte para regresso a Portugal.

  Já não tem conta a quantidade de provas que fiz; milhas (1609m), 5, 10, 15, 20, 21.098, 25km. Sei sim que fiz quatro maratonas (42195m, ou seja 42km) e chega.

  Nestes quinze anos de corrida conheci e conheço muita gente (alguns trapaceiros que infelizmente também os há nas corridas), todos os Domingos há aquela saudação, o reviver outras corridas e, após a prova, quando ainda estamos mal refeitos do esforço despendido pergunta-se: - Domingo aonde é que vais correr?... Isto só de malucos.

  A corrida na Ponte 25 de Abril é outro marco. No início era só meia ponte cortada ao trânsito, hoje é aquilo que toda a gente vê. Milhares de pessoas atravessam-na num misto de alegria e novidade pois nem sempre se avista a cidade de Lisboa da ponte… a pé!

  Uma saudação especial à Corrida dos Sinos em Mafra. Única prova até hoje que nunca faltei desde que comecei a correr. Tenho os sinos todos e a festa era linda quando os carrilhões do Convento tocavam à nossa passagem. Agora já não tocam mas a festa continua.

  Alguns companheiros de estrada já partiram, mas acredito que quando se ouve o trovejar, são passos desses meus companheiros a correrem nas estradas do céu.

E tu?... De que estás à espera?!... Vem correr, e traz outro amigo(a) também.