A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

28.7.09

O Emigrante





Os emigrantes portugueses espalharam-se pelos quatro cantos do mundo. De uma pátria que lhes foi madrasta, partiram a salto para outras paragens, com o único objectivo de conseguirem uma vida melhor para os seus. Uma mala de cartão com os seus pertences era o bastante porque mais não tinham.

Esta história não tem nada de pejorativa contra o emigrante, pois eu também demandei pela mão de meu pai para outras paragens, mas sim pela forma como nós, num país tão pequeno, temos vários “falares” que fazem com que, de vez em quando, aconteçam situações engraçadas.

É uma história onde se “troca” os "Vês" pelos "Bês" e o "Ão" pelo "Om".

Sou nortenho e quando puto vi-me em papos de aranha para conseguir soletrar o "Vê" em terras de Angola e claro que durante uns tempos era mais conhecido pelo "Binho Berde" o que ainda deu algumas lutazinhas porque me sentia ferido no amor próprio de nortenho de gema.

Mas esta história tem a haver com os emigrantes de uma zona nortenha que em França eram conhecidos por "Abeques".

Como se sabe em Francês "avec" quer dizer com.

Só que nessa zona além de trocarem os "Vês" pelos "Bês" também trocam o ão pelo "om", ou seja em vez de cão dizem "com" num linguarejar característico.

Ao chegarem a França e de tanto ouvirem o avec perguntaram o que isso significava e logo lhes disseram que era o mesmo que "com". "Com" era o amigo de quatro patas e daí, quando chegaram à terra, era vê-los a chamarem o cão de:

«Abec, bem cá ao dono»

Esta história é real e quem aqui isto ler e for da zona sabe que é assim!

O Mês de Agosto é o mês que, por excelência, o nosso emigrante volta à sua terra para matar saudades. Não faltarão festas e romarias por esse País fora.

Boa viagem e boa estadia!

6.5.09

O Escritor...

Há muitos anos, quando pensava que viria ser escritor, o início do meu romance começava assim:

«Mademoiselle Butterfly (influenciada pela ópera de Puccini), sentiu o olhar do jovem na penumbra da igreja. Já o tinha notado quando entrara. Um leve rubor coloriu-lhe as faces ao perceber que ele também se interessara por ela. Durante a missa, os seus pensamentos voavam pela nave da igreja, o seu peito palpitava e ela tentava disfarçar a sua ansiedade com vários acenos de leque. Fim da missa. Ouve-se o farfalhar das saias em forma de sino a caminho da saída.

Sem se virar, pressente que ele está atrás dela. Abre a sombrinha para proteger o rosto alvo do sol. “Sem querer” deixa cair o lenço que ele prontamente apanha e, aproximando-se dela com uma ligeira reverência, devolve-o oferecendo-se para a acompanhar pelo jardim, onde outros casais passeiam aproveitando o dia esplêndido que a natureza lhes tinha brindado.

Aqui parei. Não por falta de imaginação para continuar, mas porque me questionei: por que teria de ser sempre um lenço a cair e não um chapéu ou até a sombrinha?

Estava na “Belle Époque”, e os contos sobre essa época começavam sempre pelo lenço e não por outra peça de vestuário caindo. As “culottes” seriam impróprias, pois com os espartilhos que usavam e a cintura de vespa nunca essa peça cairia e, caso caísse, seria um início desagradável e algo embaraçoso, para um livro sobre uma época de ouro que fez de Paris, a Cidade Luz, o centro cultural da Europa.

E assim se desfez um sonho, o sonho de ter sido escritor e tudo porque nunca me livrei da queda do lenço.

Não me livrei da queda nem do facto de pensar que nasci na época errada e, de vez em quando, transporto-me para os jardins dos Jerónimos. Ali me vejo apanhando o lenço que uma “jeune”, de saias e frou-frous, deixou cair. Um eterno romântico.»

27.1.09

Fernando Peixoto




  Não o conhecia. Fernando Peixoto comentou num tema meu sobre os «Gorilas do Maiombe», designação do Batalhão de Caçadores sediado em Cabinda. Ele também estivera lá. Em conversa por mail verificamos que ambos, embora em anos diferentes, tínhamos calcorreado os mesmos locais. Tal como eu, esteve em Tando Zinze, onde tínhamos o aquartelamento. Andara na mesma floresta cerrada que é o Maiombe. Sentira os mesmos cheiros, os mesmos sons, os mesmos batuques. Quem sabe se também “amara” nas mesmas esteiras. Viu o mesmo céu estrelado através das clareiras daquelas copas de árvores enormes, o seu luar rompendo o ventre da folhagem, iluminando tenuemente a “picada” onde nós, soldados, aguardávamos ansiosos que novo dia despontasse, que a cor e o som voltasse àquela floresta, que o torpor da noite passado ao relento desaparecesse, que a cacimba que nos tolheu, que nos enregelou mesmo com os impermeáveis, desse lugar aos raios de sol que, embora a medo, se infiltrava naquelas ramagens quase impenetráveis.

  Trocámos nº de telemóveis e, depois de algumas conversas, disse-me que voltara a estudar. Fiquei surpreendido por esse facto pois raramente se volta a estudar já com uma vida formada. Mas Fernando Peixoto fizera-o. Sabia-o ligado a um grupo teatral e Poeta pois enviara-me os seus blogues Todo Mundo É Um Palco e Arca de Ternura, através deles conheci-o mais um pouco.

  Ficámos de nos encontrar em Setembro de 2008 em Belém onde, entre dois pastéis, iríamos reviver a nossa passagem pelos «Gorilas». Era sobre isso que ele gostaria de falar. Dos momentos passados entre companheiros da mesma luta, abominava tanto a guerra quanto eu, do companheirismo, da entreajuda, falar daqueles cheiros da terra vermelha, do marufo (bebida destilada da seiva da palmeira), da "Casa das tintas", dos alambamentos e outras recordações daquele “Mar Vegetal” de seu nome Maiombe.

  Quando falei com ele, disse-me que não podia vir porque estava adoentado. Nunca imaginei o que poderia ser pois quando de novo voltei a conversar nada mais adiantou. Foi a última vez que o ouvi. A novas chamadas não me respondia.

  Há pouco tempo li um comentário de sua filha, Helena Peixoto, no meu blog «Sons no Silêncio»:

Carissimo Mário,

  Conheci o seu blog através de alguém que muito o admirava, o meu pai, Fernando Peixoto, que nos deixou faz alguns meses...


  Nunca mais o iria conhecer em vida o Homem que andou nas mesmas paragens longínquas que eu. É só uma conversa adiada. Um dia destes iremos conversar sobre aqueles cristalinos regatos, daquelas mulheres cor de ébano, das esteiras, das danças à volta da fogueira...

  No dia 31 de Janeiro haverá uma homenagem em V. N. de Gaia a este Poeta e Homem de Teatro. Eu não estarei lá mas estará lá o meu abraço.




13.10.08

Adeus Amigo!...



  Fitei-o. Com a mão na cara, cofiando a barba de alguns dias, o meu amigo bebia o café com o olhar perdido no horizonte. Naquele café, onde se mirava a encosta sulcada de casario, ouvi-o durante anos.

 Casara relativamente cedo. Casara por amor. Adorava a mulher acima de tudo. Os dois lutaram por uma vida que lhes fizesse esquecer as amarguras do passado. Vieram os filhos e a vida foi, a pouco e pouco, mudando.

 Chegado a casa, depois de um dia de canseira, ouvia as lamúrias da mulher, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre a vida. E ele queria era um momento a sós com ela. Queria poder amá-la até exaustão, no carro, na cama, na banheira, fosse em que lugar fosse, sem tabus, sem regras, sem dogmas.

 Deitavam-se, e a conversa continuava. Ele bem procurava excitá-la mas nada! Cansada, ela virava-lhe as costas e ele fazia amor com o vazio.

 De vez em quando fazia movimentos, sabendo que ela ainda estava semi-acordada, para que ela se voltasse e fizesse amor com ele, mas o corpo não se voltava, o corpo não bulia e ele fazia amor com o movimento.

 No banheiro, enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo, excitado, fazia amor com a mão.

 Quando, após semanas, ela se lembrava que havia outras coisas para além de tachos e panelas, de luzes apagadas, ele fazia amor com o escuro.

 No carro quando ia com ela e a olhava, desejoso de fazer amor, fazia amor com o pensamento.

 Isto durante anos. Muitas vezes o meu amigo me confessou que, quando ia de carro, a vontade que tinha era guinar o volante, acabar com tudo, acabar com a vida.

 Pensava essencialmente nos filhos e na mulher que nunca deixara de gostar, mas a paixão esmorecera!

 Abria-me os seus sentimentos, calava-se e eu respeitava os seus silêncios. Ele não queria conselhos, queria alguém que o ouvisse!...

 … Um dia, sozinho, vai até ao penedo onde me dizia que costumava ir, ouvir as ondas, ouvir o bramido, ouvir o rugido do mar. Ali ficava entregue aos seus pensamentos e pensar se a vida assim valia a pena ser vivida.

 Olhou o azul profundo. Aqui e ali, ondas iam e vinham, gotículas de espuma batiam-lhe mansamente no rosto, num gesto de carinho, numa entrega total.

 Despiu-se em pleno dia e, de braços abertos, atirou-se àquelas águas, pela última vez fizera amor… com a Morte!


 Adeus amigo!...

20.8.08

Vô, vem!

A sua pequena mão apertava a minha com força e entusiasmo: «Vô, vem!» e puxava-me para o mar! E ria e pulava como um peixe fora d’água! As ondas dançavam na areia e ele sempre a puxar-me: «Vô, vem!»

E eu ficava a olhar aquela cabeça loirita, tão parecida com a minha quando eu era pequeno. Os seus olhos azuis brilhavam de alegria. Fazia-lhe pequenos castelos de areia e ele dava logo um pontapé naquilo. Queria era a água, enchia-lhe o balde e fazia chover sobre os braços e o corpo como me vira fazer!

O mar que tanto eu admirei em pequeno, agora levo o pequeno a admirar o mar!

Vem, meu neto, vamos ver o mar de perto. Sabes que o mar é como um velho amigo meu? Ele me conta muitas histórias, histórias que eu vou te contar também. Histórias de aventuras, de mistérios, de sonhos…

Sério, vô? Que histórias são essas?

São histórias que só se ouvem com o coração. Vem cá, encosta o teu ouvido no meu peito. Estás a ouvir?

Estou, vô. O que é isso?

Isso é o som do mar dentro de mim. O mar está sempre comigo, onde quer que eu vá. E agora está contigo também. Porque tu és parte de mim, meu neto.

Eu gosto do mar, vô. E gosto de ti.

Eu também gosto de ti.

O mar estava furioso e agitado, o vento soprava forte, mas ele sem medo só dizia:

«Vô, vem!»

Vou sim, meu neto!

C/o meu neto Renato Lima

17.5.08

Quero ser Sultão...

 ... Na próxima reencarnação.  No harém (palavra árabe “haram” que significa "o que é resguardado, sagrado") só podia entrar eu, todos os outros homens estavam proibidos de lá entrar, a não ser que fosse eunuco, aí nem era homem nem mulher.
 Podia ser como o sultão indiano Mogul Akbar (1556-1605), com mais de 5 mil mulheres. (Deixem-me fazer as contas, ora uma mulher por dia a dividir por 365 dava 13 anos e tal sem voltar à mesma, espectáculo!!!)  Os eunucos, rapazinhos apanhados nas selvas do Sudão, eram castrados e vendidos como escravos. Como a castração era feita de forma rudimentar muitos morriam o que os tornava mercadoria valiosa.
 A mãe do Sultão, a sultana-mãe, a “Valide”, era quem comandava as “tropas” lá no “Sítio do Pica-Pau amarelo”.
 Como algumas não conseguiam ver o sultão, e se ao fim de nove anos não vissem o padeiro, podiam sair e casar-se fora do harém imperial. Chamada que fosse apenas uma vez, tornava-se reclusa perpétua.
 Só uma vez e ficava para sempre à espera de uma 2ª que poderia nunca mais vir??? Realmente!... Como naquela altura as mulheres eram diferentes!  As odaliscas eram cristãs de origem europeia visto que, para um muçulmano, é pecado escravizar outro. Algumas eram conquistas das guerras, outras eram capturadas e vendidas nos mercados árabes. Embora tivessem que cumprir algumas obrigações que a “Valide” impunha, viviam numa boa, não sei se era boa se era má, tal a distância entre uma relação e outra, mas se calhar tinham outras brincadeiras, se não fosse com os eunucos não faltariam parceiras para um joguitos de papai e mamãe, tudo numa boa claro!
(Se continuam a olhar mais para as imagens do que para o que eu estou aqui a escrever paro já! Ah, bom, é o que vale ser romano e o respeito é muito bonito, então continuemos!)  Assim, enquanto esperavam que o sultão as chamasse, lá iam tendo uns banhos turcos, umas massagens pelos eunucos e umas intrigas (pois isto de haver muitas mulheres sem intrigas e traições pelo meio não tem piada nenhuma).  Eram banhadas depois em águas perfumadas com pétalas de rosas e essências raras. Lindas e sedutoras (para quem? Para os eunucos?), encaminhavam-se para outras salas onde cuidavam dos cabelos, pintavam as unhas e se maquilhavam. Depois, vestiam-se luxuosamente (não sei para quê, dali não saiam) e adornavam-se com inúmeras jóias.
 Passavam em ociosidade os dias, cantando e rindo, à espera que o rouxinol do sultão cantasse. A que fosse escolhida pelo rouxinol saltitante, era perfumada, vestida a preceito (continuo a não saber a razão do vestir já que se ia despir a seguir) pelas outras mulheres e conduzida pelos eunucos aos aposentos do califa. Se agradasse, tornava-se favorita. Se tivesse um filho do sexo masculino, tornar-se-ia esposa, e se esse filho fosse o primeiro do sultão passaria a ser primeira-esposa. Daí ser depois a sultana-mãe de um novo sultão que não me importaria de ser eu.  Mas quem sabe se, na próxima reencarnação, não me calha na sopa um harém!