A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

30.8.19

Filho és, pai serás…

Os jovens de hoje gostam do luxo.
São mal comportados,
desprezam a autoridade.
Não têm respeito pelos mais velhos
e passam o tempo a falar em vez de trabalhar.
Não se levantam quando um adulto chega.
Contradizem os pais,
apresentam-se em sociedade com enfeitos estranhos.
Apressam-se a ir para a mesa e comem os acepipes,
cruzam as pernas
e tiranizam os seus mestres.


Isto já dizia o filósofo Sócrates, há mais de 2000 anos (470-399 A.C.)

Quando somos filhos, temos sempre uma guerra de gerações com os nossos progenitores. Já no passado assim era e assim será no futuro. Quando apareceram em casa os The Beatles, The Rolling Stones e outros conjuntos da época, era uma ‘pega’ tramada pois aquilo era barulho demais para os ouvidos do meu pai, habituado a outro estilo de música. A minha mãe mais comedida, não entrava nessa luta pois isto é mais luta de ‘galos’ cada um procurando ocupar um espaço que pertence a outro. Assim é na vida selvagem, assim é na vida humana.

Mas o tempo, esse conselheiro silencioso, faz a sua parte e ao barulho do rock pesado, por exemplo dos Metallica que os meus filhos punham a tocar, aquilo já era barulho a mais para a minha ‘camioneta’ e, tal como o meu pai, não queria aquele barulho que até as paredes estremecia.

Os filhos fazem o seu papel, nós pais o nosso e, mais tarde, vemos os nossos filhos já pais, a percorrerem o nosso caminho.

Ei, meu Pai
Eu era 'inda menino e você me chamou
Mostrou-me os caminhos e me ensinou
Aquele que julgava ser melhor, meu Pai
E eu segui.

Ei, meu Pai
Você só não falou das coisas tristes, Pai
Você não me falou das amarguras, não
Por todas que eu teria que passar, meu Pai

(...)

Ah, meu Pai
Perdoa-me por eu estar falando assim
Às vezes eu esqueço e, penso só em mim
E eu sei nossos caminhos são iguais...


in ‘Ei meu Pai’ – Demétrius

Mimem os vossos pais enquanto eles cá estão.

foto: os meus pais ‘coloridos’ por mim de uma foto a preto e branco

19.8.19

As fake news e a estupidez

Um indivíduo estúpido é aquele que sem querer saber se é verdade ou mentira, partilha tudo o que lhe aparece, quando o objetivo é propalar notícias que não sabe se realmente aconteceu, com um objetivo político evidente.

Se a intenção é deitar 'abaixo' um governo seja ele da direita ou de esquerda, pegam numa foto e colocam-na com sorrisos de gáudio pois confirma-se que o governo em vez de nos governar só nos desgoverna, que são todos uns malandros, que colocam militares a fazerem de motoristas de matérias perigosas e hossanas, não é que eles se 'espetaram' e só não veio a 'terreiro' porque convinha esconder isso da opinião pública?!

... e partilham e voltam a partilhar, insultam os governantes e muitos são aqueles, que nem a sua casa sabem governar.

Esta foto foi difundida milhares de vezes, onde se dizia que tinha havido um acidente envolvendo camiões pesados que eram conduzidos por agentes da Guarda Nacional Republicana (GNR) durante a greve dos motoristas. Partilhado por milhares de pessoas estúpidas, naturalmente afetos à direita, com o intuito malévolo de levar mais uns milhares a insultar, a maldizer o governo que temos.

Pois bem. Para essa gente estúpida aqui estão as duas fotos, a que partilharam e a do acidente que aconteceu em 2017 no nó do Carregado. Deixem de ser estúpidos e pesquisem antes de colocar seja o que for.

daqui:

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/ocorreu-um-acidente-com-camioes-pesados-conduzidos-por-agentes-da-gnr-durante-a-greve-dos-motoristas

3.4.19

O Ardina

Pela manhã ou no final da tarde, o ardina na sua correria, dobrava o jornal e mandava para as janelas mais altas dos seus fieis cliente, ou de um ou outro que o solicitasse e não falhava a pontaria.

Os ardinas surgiram em Portugal em 1864, aquando do nascimento do “Diário de Notícias”, pela mão do jornalista e escritor Eduardo Coelho.

Em pleno jardim de São Pedro de Alcântara, está um monumento dedicado a Eduardo Coelho, por baixo dele, um ardina apregoa o famoso jornal.

Quem é esse ardina? Quem foi que serviu de modelo para perpetuar essa figura típica da Lisboa antiga?

Tive o prazer de saber quem foi esse pequeno vendedor de jornais, seu nome: João Maria da Costa Mortágua.

Considerado o melhor ardina do Diário de Notícias, calcorreava Lisboa de lés a lés. Tinha 10 anos quando começou a vender jornais. Nascido em 1889, vencido pela vida e falta de saúde, morre a 13 de abril de 1943, com 54 anos, no Hospital S. José.

"A chuva persistente e o vento frio que tanto o acompanharam na labuta humilde de vendedor de jornais, não o abandonaram hoje durante o desfile silencioso pelas ruas tristes e escorregadias da cidade que anos e anos, de manhã à noite, ele animou com o seu pregão vibrante"

Assim 'rezava' uma crónica no jornal "Diário Popular" (onde Mortágua também trabalhou). O "Século" e naturalmente o "Diário de Notícias", fizeram questão de dar a conhecer aos seus leitores a morte deste ardina.

Deixou descendentes que, tal como ele, eram vendedores de jornais.

Hoje o ardina tem quiosque, já não se ouve o seu pregão:

"Olha o Século, olha o Diário de Noticias .
Olha a Capital, Republica ó Popular.
Diário de Lisboa, olha o Popular, trás o desastre."

Quando passarem pelo jardim de S. Pedro de Alcântara, olhem para aquela figura ladina que, com o seu barrete na cabeça, faz parte da história de todos nós.

fontes: "Diário de Notícias", "O Século", "Diário Popular", "Diário da Manhã", Monica Lisboa (bisneta do ardina), e daqui:

https://aviagemdosargonautas.net/2014/02/18/olha-o-popular-olha-a-capital-olha-o-jornal-de-noticias-por-clara-castilho/

http://cvalente.blogspot.com/2007/08/preges-de-lisboa-antiga.html

fado dedicado ao ardina, com fotos minhas de João Mortágua e recortes dos jornais da época:


29.3.19

Retalhos da minha memória...

Deambulo pela cidade de Lisboa. Os meus passos, já que estavam perto, dirigem-se para o Jardim do Príncipe Real no Bairro Alto. Ali estava um local que muito me dizia. Foi na Rua Ruben A. Leitão que, depois de casado, fui morar em 1976.

Como estaria esse edifício, quase 43 anos depois? Desço a Rua do Jasmim, onde 'morou' a CGTP. Eis a rua Ruben A. Leitão. O prédio ainda lá está, 9 o nº da porta. Noto que há obras no interior, mas a fachada do prédio é a mesma. Ao lado, já não. Estão descaraterizadas relativamente ao tempo em que lá morei.

A porta está aberta, vejo os lances de escada que me levava ao piso superior e se eu e a minha mulher inicialmente subíamos os dois, mais tarde uma alcofa subia connosco, o da nossa primeira filha que ainda ali viveu uns tempos.

Foi nessa rua que, em 1979, surge o jornal "O Correio da Manhã". Ali os vi a preparar os jornais nas rotativas, sem grandes condições para os seus escribas, mas foi um marco na existência desse jornal.

Lisboa ao entardecer.

Lisboa

Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade, in Até Amanhã, 1956

foto tirada do Jardim de S. Pedro de Alcântara.

28.3.19

Vamos ao Teatro...

Peça 'Zoom' no Teatro da Trindade.

Sinopse:

"Zoom é uma peça sobre a relação de Sarah (Sandra Faleiro), uma fotojornalista recém-chegada da Guerra do Iraque, depois de ter sido ferida pela explosão de uma bomba, e do seu namorado James (João Reis), um repórter de guerra. James tenta que mudem o rumo das suas vidas, para que possam finalmente sonhar com uma “vida normal”, mas as cicatrizes emocionais com que ambos se debatem revelam um casal numa encruzilhada.

Em casa, recebem a visita do amigo Richard (Virgílio Castelo), editor de fotografia, que lhes apresenta a sua nova namorada, Mandy (Sara Matos), consideravelmente mais nova que ele, e que com a sua aparente ingenuidade e franqueza desconcertante, coloca questões sobre a ética e a moral que produzem em Sarah um efeito avassalador.... "

Com estes bons profissionais, a peça teve momentos que tirou dos espetadores boas gargalhadas e, sendo o tema baseado em momentos de guerra, em que há duas situações que se opõem mas que no fundo se complementam, as vítimas e quem fotografa esses horrores da guerra (os repórteres da guerra são muitas vezes vítimas desse levar a fotografia ou a escrita da violência a todos nós. Muitos prémios Puliterz tem quase sempre a guerra como tema principal para atribuição desse prémio), para quem gostar do tema é de ver.

Infelizmente a sala tem dois inconvenientes: qualquer pessoa um pouco mais alta que o Nelson Ned, tira a visibilidade da boca de cena a quem atrás está (e ontem a plateia estava muito bem composta), e o som. Quando há um falar mais baixo (principalmente nas atrizes) pouco se percebe e todos sabemos que quanto mais para 'sénior' se vai, mais duro é o ouvido.

A sala é um espetáculo, e estas são as únicas fotos que me foram permitidas tirar.

Se quiseres saber mais, vai ao Teatro.