A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

10.12.16

Mar Eterno

Esta morna que faz parte do meu tempo e das minhas memórias de menino e moço e a quem pego o título e faço um pseudo-poema em nov1975 a essa morna dedicada.

Ó Mar Eterno, mar eterno
Que desde o início dos tempos perduras
Canta-te em "Odisseia" Homero
Heróis de fantásticas aventuras

E nas noites de tempo lançado
Quero-te ouvir Ó Mar Eterno,
Numa voz de hoje cantado.
Na melancolia deste Inverno

No holocausto deste Inferno,
Lava as chagas deste ser desmembrado,
Que na terra foi lançado
Pelo ventre materno.

Encerras dentro de ti
A solução deste planeta incerto,
De um passado que não vi,
De um futuro, estranhamente perto

Se a guerra acabada,
Um Homem não existir então,
Gera outro com a Terra amada,
E inicia uma nova geração.

Uma nova geração, oh mar
Que só saiba o que é o amor!...
Pois esta fez o seu lar,
Sobre o ódio, egoísmo e dor.

... e nesse novo mundo amigo
traz-me de novo contigo.

Nov. 1975

Mário Lima

Uma morna nunca esquecida mas também nunca mais ouvida. Hoje voltei a ouvir e na voz que me ficou sempre na memória, Mário de Melo.


Eleutério Sanches

22.11.16

O fim do arco-íris

A noite fora chuvosa. Sabia que o trânsito seria infernal quando saísse. E assim foi. Longas filas, acidentes vários. Dentro do carro a passo de caracol ia avançando e o sono apertando. Os olhos teimavam em fechar. Estava difícil aguentar o pára-arranca sem adormecer.

- Amanhã n'O Fio da Meada, será a vez da historiadora Irene Pimentel - assim falava António Macedo na Antena 1.

Condutores com a esperteza saloia que define muitos portugueses, iam na faixa contrária e tentavam meter-se um pouco mais à frente para recuperar dois lugares na já longa fila de quilómetros.

Olho para o céu. Dois deslumbrantes arco-íris tingiam o cinzento do corcel de nuvens que cavalgavam no espaço, ora abrindo clareiras por onde o sol espreitava, ora grossas bátegas caíam em força sobre os carros dos cada vez mais nervosos motoristas.

Dois arco-íris? Lindo. Um deles longe, outro bem perto. A estrada divide-se. Sigo para a direita, mas de tão lento que dava para ver tudo em pormenor. Uma menina ao volante no telemóvel escrevia. Outros fumavam desesperados. Ia deambulando o meu olhar até que o parei num determinado local, onde o verde na berma predominava. As cores do arco-íris terminavam (ou começavam) ali. As sete cores translúcidas mergulhavam naquele verde. Fiquei abismado, nunca tal tinha visto. Olhei maravilhado como se dali saísse o pote de ouro e um duende tomando conta dele contra a ganância do Homem.

Foram segundos, foi um instante pois logo de seguida cai em força nova remessa de água e as cores desvaneceram.

All in all it's just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wal

Cantavam os Pink Floyd no cd que tinha colocado. E o "muro" à minha frente não andava.

Uns palitos nos olhos dariam jeito naquela altura. Sobe, desce, túnel, volta a descer. Mais há frente, bombeiros com a agulheta, lavam a estrada de três faixas confinadas numa só. Alguém por ali "voara" de encontro a um destino incerto.

Duas horas e meia depois chego . "Home sweet home" - diz-me o tapete à entrada.

Olho pela vidraça do quarto. Um outro arco-íris brilha intensamente. Mas não é o meu. Esse desfez-se nas brumas do tempo.

Fecho a persiana. Acomodo o corpo entre os lençóis e durmo o sono dos justos com um sorriso nos lábios. O meu arco-íris brilhava nele.

21.11.16

A Princesa da Prússia

Estava frio. Os meus quatro filhos ainda pequenos, dormiam em beliches. As raparigas de um lado, os gémeos do outro.

- Pai, está frio - diziam eles - enquanto puxavam as mantas para melhor se aquecerem.

Vou-vos contar uma história - disse-lhes eu.

As quatro cabecinhas voltaram-se na minha direção. O pai ia contar uma história. Não era todos os dias que isso acontecia.

Olhei-os e comecei a história. Era sobre a princesa da Prússia.

"A princesa da Prússia era uma menina muito mimada. Não fazia nada. Ficava zangada quando não lhe faziam as vontades e estava sempre enfastiada. Passava o dia de um lado para o outro dentro do palácio. Um dia resolveu sair do palácio. Tentaram demovê-la pois a neve caía e o frio apertava, mas nada conseguiram. A menina decidiu e tinha-se que se lhe fazer a vontade.

Apressaram-se em lhe arranjar uma carruagem com todos os confortos, aperaltaram-se os guardas e nos seus lindos trajes de cossacos saíram para uma volta até à floresta.

O tempo piorava, um vento gélido entrava pelas frinchas da carruagem e a princesa começou a sentir frio. Então ordenou aos guardas que lhe fizessem uma fogueira para se aquecer. Que remédio tiveram eles senão cumprir o desejo da sua augusta princesa.

Com os machados começaram a cortar os ramos que iam amontoando para fazerem a fogueira. Pouco a pouco foram retirando os casacos, as túnicas, ficando só em camisa. A princesa olhava espantada. Ela cheia de roupa e com frio, eles de camisa.

Saiu da carruagem e perguntou a razão porque estavam todos de camisa. Um deles estendeu-lhe o machado e disse-lhe a medo para ir cortando uns ramos. A princesa assim fez. Passado pouco tempo começou a sentir calor e soube a razão."

... e por aqui me fiquei.

Os quatro olharam-me como à espera de mais e então disse-lhes:

- Vocês têm frio porque não estão a fazer nada, se estivessem a cortar toros de madeira iriam sentir calor.

Tenho a impressão que a partir desse dia nunca mais quiseram ouvir-me contar mais histórias. Até hoje perdura essa da princesa da Prússia.

14.11.16

Superlua

14 de novembro de 2016

Máquina: Panasonic
Modelo: DMC-FZ72
Exposição: 1/125 sec
Exposição (EV+/-): 0 step
Abertura: f/5.9
ISO: 320
Dist.Focal: 215mm
Dist.Focal (35mm): 2400 mm


3.3.16

Haxixe?

Os passos encaminham-nos para o Terreiro do Paço. Lisboa sempre com o seu encanto, sempre bela. O bulício não é o do costume. Talvez por ser domingo e ainda cedo para os lisboetas andarem a calcorrear as ruas da cidade, amantes do fado vadio e do deitar tardio. Mas os turistas proliferavam, olhando para a cidade com outros olhos que não os nossos.


Um sujeito aproxima-se e em surdina, abrindo ligeiramente a mão pergunta: - Haxixe?!

Vi que era uma constante o assédio, não só oferecendo droga (que não é mais do que louro prensado)...

"Amigo estou ali hospedado nos Restauradores, vim de Coimbra à procura de emprego e precisava de uma ajuda para pagar o hotel pois já não tenho dinheiro" - pedia-me um outro que de mim se abeirou.

Antigamente pedia-se para pagar o transporte pois morava ali para os lados da Póvoa de Santo Adrião e não tinha dinheiro para a camioneta. Agora está-se mais fino e já pedem para pagar o hotel. Nada mau. Mudam-se os tempos, mudam-se as necessidades.

Óculos, extensores para telemóveis, tudo se procura vender ali. Os turistas sempre assediados e eu devia ter cara de turista pois mesmo junto ao Cais das Colunas, lá vem outro com a mão entreaberta e a pergunta sacra: - Haxixe?!


Não! Não necessito de haxixe. Necessito de respirar os ventos que me trazem os cheiros do Tejo, de abarcar o horizonte, onde gaivotas e barcos deslizam nas suas águas suaves, de olhar para o azul do céu, de sentir o pulsar de Lisboa.



... E ao som de Mozart, volto costas à cidade e digo... Até à próxima!