A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

19.5.05

Mário Sá-Carneiro - O Outro

 Mário sinto esse teu desejo de escapulires da vida. Que batalha travas dentro de ti. Essa ponte de tédio que te separa do outro está a desmoronar-se. Olhas e nada mais vez que um fim que te liberte das amarras do teu íntimo. Ser ele ou ser ela, ó que dor! Sentir a seda a escapulir pelo corpo ó que delírio! Mário porque não mais lutaste e deixaste o grifo alado tomar-te nos braços e desaparecer... para sempre?!... Para sempre não Mário pois agora, é que te compreendemos!...

... e a tua sombra Mário?!... seria o outro ou, simplesmente... tu!




na voz de Adriana Calcanhoto


Lisboa, Fevereiro de 1914.

Mário e Pessoa

 Os dois poetas encontram-se, Mário e Pessoa. Fito-os em silêncio. Sentados, cada um procura no outro o porquê de tanta luta interior. Estão “sós” embora milhares de transeuntes passem por perto. Nada lhes escapa, tudo lhes foge. A vida, o sentimento, a amargura de estarem fora de tempo, dum tempo que não é o deles. Ambos, “dormem” no silêncio dos seus pensamentos como fugindo da vida onde a morte... é o sono eterno!


S.C. - Fios de oiro puxam por mim
F.P. - Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
S.C. - A soerguer-me na poeira
F.P. - Que coisas eu sonhei
S.C. - Cada um para o seu fim,
F.P. - Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
S.C. - Cada um para o seu norte...
F.P. - Para um espaço aberto
S.C. - Ai que saudades da morte...
F.P. - Que não conheço, pois que despertei
S.C. - Quero dormir..., ancorar...
F.P. - Para o quê ainda não sei.
S.C. - Arranquem-me esta grandeza!
F.P. - Melhor é nem sonhar nem não sonhar
S.C. - P'ra que me sonha a beleza,
F.P. - E nunca despertar.
S.C. - Se a não posso transmigrar?...


(dois poemas entrecruzados de Mário e Pessoa)

Mário Sá-Carneiro - FIM



 Por Paris passaste numa agonia constante de um império agonizante. Deuses ínfimos, heróis de pés-de-barro por ti criados na tua imaginação de criança que nunca te largou... E, nos escombros da tua existência, nem uma réstia de um sorriso pois foste sempre... taciturno!



Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Paris, 1916

10.5.05

Os Clones - Peça de Teatro em Quatro Actos



 A sala estava apinhada de gente com duas pessoas; o B e o K.

 Ouvem-se as pancadinhas de Moliére... pum... pum... pum... pumpumpumpum!...

 No fosso, os primeiros acordes de «Requiem para um amigo», versão orquestral da canção de Elton John, «Funeral for a friend».

 A cortina abre-se lentamente. No palco estão, somente, quatro espelhos. No 1.º encontrava-se reflectida a imagem da «coqui». No segundo, a do «Darq»; no 3.º, «Angol» e no 4.º «Marius70».

- 1.º Acto –

  Marius70 entra no palco e dirige-se para 1.º espelho.

- Bom dia meu clone «coqui», então por aqui? Com que então és meu clone e nada me dizias. Lembras-te quando íamos ao Estádio da Luz ver aquelas noites europeias... o quê não te lembras?... o inferno da Luz, as noites mal dormidas e aquela paixão presente sempre que o Benfica ultrapassava mais um obstáculo. Também não te lembras?... mas afinal que clube é o teu? És do Sporting?! Onde moras?!... perto do Porto? Ora, eu moro perto de Lisboa. Tu és do Leão e eu sou da Águia, estás no Norte e eu estou no Centro/Sul. És mulher, eu sou homem, afinal, tu, não és meu clone!

  Fecham-se por momento as cortinas. Quando reabrem só lá estão três espelhos. A orquestra continua a tocar o «Requiem...».

- 2.º Acto. –

  Marius vai em direcção ao 2.º espelho.

- Olá Darq, meu clone! Não é que pensava que a coqui era eu?!... afinal, não! Mas tu sim, não há engano possível. Já estás a dizer que não e ainda agora comecei?! Tu és Águia, logo és do Glorioso como eu. Lembras-te quando tivemos que saltar as vedações do Estádio da Luz, em 16 de Março de 1983, quando o Benfica defrontou o Roma? Aquilo é que foi uma jogatana. Tínhamos ganho lá por 1-0 e os Romanos vinham com ganas de dar a volta ao resultado. Grande jogo do Pietra. O quê?... não saltaste nenhuma vedação?! Vou-te avivar a memória Darq. Não te lembras daqueles jogos contra o Liverpool, que “cabazada” levamos, contra U. Craiova, ao Olympiakos demos três secos; golos de Filipovic, Diamantino e Maniche, contra o Sampdoria, contra..., o quê?...não te lembras? Afinal, tu, também não és meu clone!

  Fecham de novo as cortinas. Depois de abertas só lá estão dois espelhos.

- 3.º Acto. –

  Marius70, aborrecido, dirige-se ao 3.º espelho.

- Angol, é só decepções!... por duas vezes me enganei!... mas tu não me enganas! Lembras-te quando jogávamos à bola na Casa Branca, ali junto à antiga lixeira? Hoje é o Roque Santeiro. Aquilo é que eram jogos, mudávamos aos cinco e acabávamos aos dez. Quando íamos ao Estádio dos Coqueiros ver as equipas do “puto” jogar. Era o Benfica, era o Porto, o Sporting, a Académica, o Varzim e aquela comunidade portuguesa deslocava-se ao Estádio para ver de perto os seus ídolos. O Eusébio, o Peres do Sporting, o Hilário, o Coluna e tantos mais. Aquilo sim... aquilo é que eram jogadores! E o Asa, o Benfica e o Sporting de Luanda nada podiam fazer contra aqueles monstros. Eram de sete para cima. O quê?... não te lembras? (mudando para o tom de voz do Tibúrcio).

Tu não te lembra da tia Mariquinha que tinha engorido cinco angorare, e médico que faz peração na bariga tirou dois e quinhenta? E do tio Paurino qui andava esconfiado. Dizia que o filho não era dere. O moço tinha duas perna verdadeira e o tio Paurino tinha uma perna de pau. E lá no S. Paulo, branco és mesmo esperto, he,he,he, fez uma rua mesmo no meio dos dois passeio. O quê também não te lembra? Já estou ficar xateado, meu! Deixa então olhar bem para ti. Afinar tu és como a Macumbina, és murer... pá!... já não vou beber mais «Cuca» nem «Nocal». Tu também não és meu clone!


  Pela terceira vez, fecham-se as cortinas. Ao abrirem-se, só se encontra no palco um espelho.

- 4.º Acto. -

  Marius70 dirige-se, cabisbaixo, para o 4.º espelho. Ao chegar a ele olha para a imagem nela reflectida. Nada diz. Lentamente, endireita-se. Passa a mão pelos parcos cabelos e pelas cãs já da cor da prata. Olha uma vez mais para aquela imagem tão sua conhecida. Imagem que durante muitos e longos anos a vê, constantemente, reflectida nos espelhos. Sorri, enquanto uma lágrima lhe desliza pela face. Tinha encontrado finalmente o seu clone. O clone... que tanto tinha procurado estava ali, à sua frente. Afinal nunca tinha deixado de ser quem era. Marius70 era, simplesmente,... Marius70, e nada mais!

  Vira-se para a plateia muda e queda. Estavam todos a viver a alegria daquele homem que tinha procurado o seu clone e o tinha encontrado.

De repente, B levanta-se, e como não tinha percebido nada da história, aquilo era de mais para a sua camioneta, agita uma bandeira e berra palavras em tons de azul: «BIBA O PORTO, CARAGO!». Procura sair rapidamente para ir à net da Empresa onde trabalha, meter mais uns quantos temas por segundo. A seu lado, K medita na peça que lhe fora dada a ver. Tinha sido enganado. Afinal não havia clone nenhum, marius70 tinha falado verdade. Ele, um homem já com tantas primaveras em cima, acreditara num fedelho e perdera um amigo. Até lhe tinha chamado palhaço. Que tristeza lhe invadia a alma. Pela última vez os seus olhares se cruzam. As cortinas começam a fechar-se lentamente.

  No fosso, a orquestra toca as últimas notas do... «Requiem para um amigo».




04.02.2003

1.5.05

Mãe



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Mãe
Nasci
Um pranto
Uma dor
Um aconchegar
Ao teu peito
Sorver a vida
Sorver o Amor
Que senti
De Ti
Minha Mãe.
Nasci
Vivi.



9Ag.83

4.4.05

Deixa-me!..




deixa-me sonhar e a mente vagar no espaço sem fim.
deixa-me criar as imagens sonhadas que não são para mim
deixa-me dar a esperança sentida de uma noite perdida
deixa-me dar o espaço, o mar e a minha voz amiga
deixa-me dar o pouco que tenho, não tenhas medo
deixa-me dar a paz e a harmonia, a noite, o sossego.




27.12.2002