A internet é uma boa forma de passar o tempo mas não é a única forma de passar a vida

27.1.09

Fernando Peixoto




  Não o conhecia. Fernando Peixoto comentou num tema meu sobre os «Gorilas do Maiombe», designação do Batalhão de Caçadores sediado em Cabinda. Ele também estivera lá. Em conversa por mail verificamos que ambos, embora em anos diferentes, tínhamos calcorreado os mesmos locais. Tal como eu, esteve em Tando Zinze, onde tínhamos o aquartelamento. Andara na mesma floresta cerrada que é o Maiombe. Sentira os mesmos cheiros, os mesmos sons, os mesmos batuques. Quem sabe se também “amara” nas mesmas esteiras. Viu o mesmo céu estrelado através das clareiras daquelas copas de árvores enormes, o seu luar rompendo o ventre da folhagem, iluminando tenuemente a “picada” onde nós, soldados, aguardávamos ansiosos que novo dia despontasse, que a cor e o som voltasse àquela floresta, que o torpor da noite passado ao relento desaparecesse, que a cacimba que nos tolheu, que nos enregelou mesmo com os impermeáveis, desse lugar aos raios de sol que, embora a medo, se infiltrava naquelas ramagens quase impenetráveis.

  Trocámos nº de telemóveis e, depois de algumas conversas, disse-me que voltara a estudar. Fiquei surpreendido por esse facto pois raramente se volta a estudar já com uma vida formada. Mas Fernando Peixoto fizera-o. Sabia-o ligado a um grupo teatral e Poeta pois enviara-me os seus blogues Todo Mundo É Um Palco e Arca de Ternura, através deles conheci-o mais um pouco.

  Ficámos de nos encontrar em Setembro de 2008 em Belém onde, entre dois pastéis, iríamos reviver a nossa passagem pelos «Gorilas». Era sobre isso que ele gostaria de falar. Dos momentos passados entre companheiros da mesma luta, abominava tanto a guerra quanto eu, do companheirismo, da entreajuda, falar daqueles cheiros da terra vermelha, do marufo (bebida destilada da seiva da palmeira), da "Casa das tintas", dos alambamentos e outras recordações daquele “Mar Vegetal” de seu nome Maiombe.

  Quando falei com ele, disse-me que não podia vir porque estava adoentado. Nunca imaginei o que poderia ser pois quando de novo voltei a conversar nada mais adiantou. Foi a última vez que o ouvi. A novas chamadas não me respondia.

  Há pouco tempo li um comentário de sua filha, Helena Peixoto, no meu blog «Sons no Silêncio»:

Carissimo Mário,

  Conheci o seu blog através de alguém que muito o admirava, o meu pai, Fernando Peixoto, que nos deixou faz alguns meses...


  Nunca mais o iria conhecer em vida o Homem que andou nas mesmas paragens longínquas que eu. É só uma conversa adiada. Um dia destes iremos conversar sobre aqueles cristalinos regatos, daquelas mulheres cor de ébano, das esteiras, das danças à volta da fogueira...

  No dia 31 de Janeiro haverá uma homenagem em V. N. de Gaia a este Poeta e Homem de Teatro. Eu não estarei lá mas estará lá o meu abraço.




13.10.08

Adeus Amigo!...



  Fitei-o. Com a mão na cara, cofiando a barba de alguns dias, o meu amigo bebia o café com o olhar perdido no horizonte. Naquele café, onde se mirava a encosta sulcada de casario, ouvi-o durante anos.

 Casara relativamente cedo. Casara por amor. Adorava a mulher acima de tudo. Os dois lutaram por uma vida que lhes fizesse esquecer as amarguras do passado. Vieram os filhos e a vida foi, a pouco e pouco, mudando.

 Chegado a casa, depois de um dia de canseira, ouvia as lamúrias da mulher, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre a vida. E ele queria era um momento a sós com ela. Queria poder amá-la até exaustão, no carro, na cama, na banheira, fosse em que lugar fosse, sem tabus, sem regras, sem dogmas.

 Deitavam-se, e a conversa continuava. Ele bem procurava excitá-la mas nada! Cansada, ela virava-lhe as costas e ele fazia amor com o vazio.

 De vez em quando fazia movimentos, sabendo que ela ainda estava semi-acordada, para que ela se voltasse e fizesse amor com ele, mas o corpo não se voltava, o corpo não bulia e ele fazia amor com o movimento.

 No banheiro, enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo, excitado, fazia amor com a mão.

 Quando, após semanas, ela se lembrava que havia outras coisas para além de tachos e panelas, de luzes apagadas, ele fazia amor com o escuro.

 No carro quando ia com ela e a olhava, desejoso de fazer amor, fazia amor com o pensamento.

 Isto durante anos. Muitas vezes o meu amigo me confessou que, quando ia de carro, a vontade que tinha era guinar o volante, acabar com tudo, acabar com a vida.

 Pensava essencialmente nos filhos e na mulher que nunca deixara de gostar, mas a paixão esmorecera!

 Abria-me os seus sentimentos, calava-se e eu respeitava os seus silêncios. Ele não queria conselhos, queria alguém que o ouvisse!...

 … Um dia, sozinho, vai até ao penedo onde me dizia que costumava ir, ouvir as ondas, ouvir o bramido, ouvir o rugido do mar. Ali ficava entregue aos seus pensamentos e pensar se a vida assim valia a pena ser vivida.

 Olhou o azul profundo. Aqui e ali, ondas iam e vinham, gotículas de espuma batiam-lhe mansamente no rosto, num gesto de carinho, numa entrega total.

 Despiu-se em pleno dia e, de braços abertos, atirou-se àquelas águas, pela última vez fizera amor… com a Morte!


 Adeus amigo!...

20.8.08

Vô, vem!

A sua pequena mão apertava a minha com força e entusiasmo: «Vô, vem!» e puxava-me para o mar! E ria e pulava como um peixe fora d’água! As ondas dançavam na areia e ele sempre a puxar-me: «Vô, vem!»

E eu ficava a olhar aquela cabeça loirita, tão parecida com a minha quando eu era pequeno. Os seus olhos azuis brilhavam de alegria. Fazia-lhe pequenos castelos de areia e ele dava logo um pontapé naquilo. Queria era a água, enchia-lhe o balde e fazia chover sobre os braços e o corpo como me vira fazer!

O mar que tanto eu admirei em pequeno, agora levo o pequeno a admirar o mar!

Vem, meu neto, vamos ver o mar de perto. Sabes que o mar é como um velho amigo meu? Ele me conta muitas histórias, histórias que eu vou te contar também. Histórias de aventuras, de mistérios, de sonhos…

Sério, vô? Que histórias são essas?

São histórias que só se ouvem com o coração. Vem cá, encosta o teu ouvido no meu peito. Estás a ouvir?

Estou, vô. O que é isso?

Isso é o som do mar dentro de mim. O mar está sempre comigo, onde quer que eu vá. E agora está contigo também. Porque tu és parte de mim, meu neto.

Eu gosto do mar, vô. E gosto de ti.

Eu também gosto de ti.

O mar estava furioso e agitado, o vento soprava forte, mas ele sem medo só dizia:

«Vô, vem!»

Vou sim, meu neto!

C/o meu neto Renato Lima

17.5.08

Quero ser Sultão...

 ... Na próxima reencarnação.  No harém (palavra árabe “haram” que significa "o que é resguardado, sagrado") só podia entrar eu, todos os outros homens estavam proibidos de lá entrar, a não ser que fosse eunuco, aí nem era homem nem mulher.
 Podia ser como o sultão indiano Mogul Akbar (1556-1605), com mais de 5 mil mulheres. (Deixem-me fazer as contas, ora uma mulher por dia a dividir por 365 dava 13 anos e tal sem voltar à mesma, espectáculo!!!)  Os eunucos, rapazinhos apanhados nas selvas do Sudão, eram castrados e vendidos como escravos. Como a castração era feita de forma rudimentar muitos morriam o que os tornava mercadoria valiosa.
 A mãe do Sultão, a sultana-mãe, a “Valide”, era quem comandava as “tropas” lá no “Sítio do Pica-Pau amarelo”.
 Como algumas não conseguiam ver o sultão, e se ao fim de nove anos não vissem o padeiro, podiam sair e casar-se fora do harém imperial. Chamada que fosse apenas uma vez, tornava-se reclusa perpétua.
 Só uma vez e ficava para sempre à espera de uma 2ª que poderia nunca mais vir??? Realmente!... Como naquela altura as mulheres eram diferentes!  As odaliscas eram cristãs de origem europeia visto que, para um muçulmano, é pecado escravizar outro. Algumas eram conquistas das guerras, outras eram capturadas e vendidas nos mercados árabes. Embora tivessem que cumprir algumas obrigações que a “Valide” impunha, viviam numa boa, não sei se era boa se era má, tal a distância entre uma relação e outra, mas se calhar tinham outras brincadeiras, se não fosse com os eunucos não faltariam parceiras para um joguitos de papai e mamãe, tudo numa boa claro!
(Se continuam a olhar mais para as imagens do que para o que eu estou aqui a escrever paro já! Ah, bom, é o que vale ser romano e o respeito é muito bonito, então continuemos!)  Assim, enquanto esperavam que o sultão as chamasse, lá iam tendo uns banhos turcos, umas massagens pelos eunucos e umas intrigas (pois isto de haver muitas mulheres sem intrigas e traições pelo meio não tem piada nenhuma).  Eram banhadas depois em águas perfumadas com pétalas de rosas e essências raras. Lindas e sedutoras (para quem? Para os eunucos?), encaminhavam-se para outras salas onde cuidavam dos cabelos, pintavam as unhas e se maquilhavam. Depois, vestiam-se luxuosamente (não sei para quê, dali não saiam) e adornavam-se com inúmeras jóias.
 Passavam em ociosidade os dias, cantando e rindo, à espera que o rouxinol do sultão cantasse. A que fosse escolhida pelo rouxinol saltitante, era perfumada, vestida a preceito (continuo a não saber a razão do vestir já que se ia despir a seguir) pelas outras mulheres e conduzida pelos eunucos aos aposentos do califa. Se agradasse, tornava-se favorita. Se tivesse um filho do sexo masculino, tornar-se-ia esposa, e se esse filho fosse o primeiro do sultão passaria a ser primeira-esposa. Daí ser depois a sultana-mãe de um novo sultão que não me importaria de ser eu.  Mas quem sabe se, na próxima reencarnação, não me calha na sopa um harém!


2.5.08

Hoje senti-me alentejano


  É verdade, eu, um nortenho, hoje senti-me alentejano.

  Almoço, regado com um vinho tintinho de Cuba de 2006, fresquinho (coloco sempre no frigorífico meia hora antes de beber) e aí está o “je” a pensar que está debaixo de um chaparro, mordiscando uma palha, de botas de atanado grosseiro, calças e colete de cotim. Chambre de riscado e lenço ao pescoço. Resguardando as calças uns safões de lona e na cabeça chapéu de abas largas e copa redonda. Um autêntico alentejano dormindo a sesta.


  Mesmo que o passarinho cantasse nada era comigo. Ali na planície alentejana, onde o sol castiga mais, sentia-me como um nababo, sem nada na coutada mas com o mundo na mão.

  Estar em paz comigo mesmo é estar em paz com o mundo. Podem cair raios e coriscos mas a sensação de que estou ouvindo «Vou-me embora vou partir» dá-me vontade de ficar. Entregue a Deus, entregue à Natureza.

  Se a culpa é do Cuba de 2006 não sei, sei é que há dias assim...

  ...E eu, um nortenho, hoje, senti-me alentejano, amanhã é outro dia!


P.S. - O povo alentejano, como todos os outros povos que fazem parte deste jardim à beira-mar plantado, é um povo trabalhador. Tem a fama mas não teve o proveito pois foi um povo extremamente explorado. E o Alentejo, ontem o celeiro de Portugal, está em completo abandono porque quem governa este País pensa que sai mais barato comprar lá fora o que tínhamos cá dentro.


12.2.08

As Alcovas Reais


  Se houve Papas mais papistas que Casanova, que dizer dos reais leitos deste país à beira-mar plantado?

  Sabemos, quando estudámos a história de Portugal, que lá só vem os feitos gloriosos das conquistas reais aquém e além-mar, e as alcovas? Será que o facto de se ser rei teria obrigatoriamente de olhar para a rainha e perguntar com voz melosa: «Quereis algo hoje senhora?» Caso o sinal fosse afirmativo lá ia o Rei, pela calada da noite, até aos aposentos da rainha para cumprir a sua obrigação, mais que não fosse para dar um herdeiro varão para continuação da linhagem e do Reino de Portugal e dos Allgarves (tem que se usar agora esta terminologia por causa dos “Kámones”).

  A pergunta que se propõe é por que razão o Rei perguntava à Rainha se estava disponível?! É que se nada dissesse estava sujeito a ver o leito conjugal ocupado por um Conde Andeiro qualquer.

  Então vamos olhar para as cabeças coroadas deste país e saber o que não vem nos livros de História.

  Vamos começar por D. Teresa, filha ilegítima do rei de Leão e Castela, a quem o filho D. Afonso Henriques tratou-lhe da saúde na batalha nos campos de S. Mamede. Pois D. Teresa não deixava arrefecer a alcova e o Conde de Trava, não lhe travando os ímpetos sexuais, venerava tão doce caminho sendo recompensado pelos altos serviços prestados, com castelos e senhorios.

  Bastardos há muitos, e assim uns mais outros menos a primeira dinastia não deixou o crédito por corpos alheios e se Sua Majestade a Rainha não estava afim de..., outros horizontes para o Rei se abriam.

  Ia D. Dinis no calor da noite cantando «Ai flores, ai flores do verde pinho se sabedes novas do meu amigo, ai deus, e u é», quando lhe surge a caminho a Rainha Isabel e as suas aias com archotes acesos.

Que fazeis aqui senhora? – Pergunta o Rei admirado

Vim vos alumiar o caminho meu Senhor. Ide vê-las? – Retorquiu a rainha.

  E assim “nasceu” o Lumiar e Odivelas.

  Pois é!... Ia D. Dinis a caminho para mais um retiro espiritual ali prós lados de Odivelas, e quantos filhos ilegítimos legitimou D. Dinis?... A módica quantia de 25 filhos! Isto é que ia uma crise lá prós lados dos Paços Reais, mas se a Rainha era Santa lá tinha razões o nosso rei para não lhe tocar... Digo eu!

Já o seu filho D. Afonso IV não seguiu as pisadas do pai pois foi “único que não teve filhos bastardos”... Que se saiba!

  Se houve rei que mais utilizou a expressão «Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço» esse Rei foi D. Pedro I – o Justiceiro.

  Os seus amores com Inês de Castro são por demais conhecidos, ainda sua alteza Real era casado com D. Constança. Nos seus devaneios extraconjugais com Inês, quatro filhos vieram ao mundo.

  Apesar destas visitas a alcova alheia era D. Pedro implacável com os seus súbditos no que respeita a pecadilhos alheios e, assim, mandou castrar um escudeiro, seu amante, que se esquecia do escudo em cama de dama casada e mandou queimar outra adúltera.

  Por isso não admira que o implacável D. Pedro obrigasse o povoléu ao beija-mão a D. Inês depois de morta... Mas que fedor – diriam alguns!

  Seu filho legítimo D. Fernando, o Formoso, embora noivo de uma princesa castelhana, não teve problemas em ornamentar a testa de um fidalgo chamado João Lourenço da Cunha casado com a uma mulher dissoluta, perigosa e perversa de seu nome D. Leonor Teles. Esta, de visita a sua irmã, que vivia no mesmo paço real, deu de caras com D. Fernando que nos seus 21 anos devia ser um “pão” prás moçoilas cá do Reino e fazendo-lhe “olhinhos mortos” lá conseguiu os seus favores sexuais. Teve D. Fernando arte e engenho em conseguir do Papa a anulação do casamento de D. Leonor mas teve um triste fim e o Conde Andeiro tomou o seu lugar para apagar o fogo que consumia a “triste” viúva. Saída da prisão em Tordesilhas, Leonor terá tido ainda dois filhos do cavaleiro Zoilo Iñíguez, tendo o último destes filhos, Maria, já com a bonita idade de 46 anos. Bem fogosa a rapariga.

O Formoso, além dos três filhos do seu matrimónio, teve também uma filha bastarda, que casou com o conde de Gijon, filho bastardo do monarca castelhano D. Henrique.

Pelos vistos, na Península Ibérica, réis e aias no leito era um forrobodó.


Querem mais? Então não percam os próximos episódios das alcovas reais porque eu… também não!